Nos anos 90, ninguém mais ligava para o rock depois da morte de Kurt Cobain. Com ele, se foi um pouco da rebeldia e o inconformismo tão marcantes neste estilo que muitos insistem em dizer que também já se foi.

O que não se esperava é que, há exatos 10 anos, pudesse ser lançada uma obra tão importante e influente quanto Nevermind.

Radiohead celebra com Ok Computer a técnica sem extravagância, dissonâncias, distorções e melodias misturadas com precisão única e uma certa dose de experimentação em estúdio que conseguem causar um efeito hipnótico. Guitarras construindo uma cortina de sons inigualáveis, uma cozinha impecável e vocais que variam entre a suavidade e o insano.

Influenciado por livros como ‘O guia do mochileiro das galáxias’ de Douglas Adams e ‘1984′ de George Orwell, Thom Yorke escreve letras que refletem o caos urbano, a cultura hi-tech que escraviza e deforma o que é humano, as angústias e conflitos num mundo que gira em torno de um consumo desenfreado em dias pré-11 de setembro. Não se trata de um álbum conceitual, já que cada canção apresenta seu próprio ponto de vista, mas é trabalho coeso, que usa imagens de um mundo futurista para falar sobre questões pessoais e sociopolíticas. Este clima alcançaria seu ápice três anos mais tarde com o lançamento de ‘Kid A’.

Com a produção nas mãos de Nigel Godrich, que já dava seus toques desde o lançamento do álbum anterior The Bends, a banda conseguiu reunir em doze canções a essência de uma época cínica e hipócrita da moderna sociedade, mesclando os mais diferentes elementos sonoros com letras que .

Abrir o álbum com uma música como ‘Airbag’, uma mistura de jazz e efeitos nem um pouco convencionais, é ousadia suficiente para ser reconhecer sua importância num cenário que futilmente buscava o próximo substituto do Nirvana. O contrabaixo de Colin Greenwood e a bateria de Phil Selway dão um peso particular e incomum ao que se espera de uma banda de… rock?

Se Paranoid Android pode ser comparada com alguma outra canção, seria ’Happiness is a Warm Gun’ do White Album dos Beatles pela alternância de clima. Na introdução, uma inteligência artifical ‘punk’ conta 1-2-3-4 e então entra o clima acústico, e seco. Depois uma fúria de guitarras e vocais raivosos com pitadas de sarcasmo. “O pânico / o vômito / Deus ama suas crianças”, diz a letra ácida que certamente remete àqueles que fazem de tudo para continuar escravizando outros homens em nome de dinheiro e poder. A influência dos Fab Four pode ser ouvida também em Karma Police com trecho de piano lembrando ‘Sexy Sadie’.

O título da canção ‘Subterranean Homesick Alien’ faz referência direta ao clássico Subterranean Homesick Blues de Bob Dylan. Nela, o conjunto de efeitos explorados por Jonny Greenwood e Ed O’Brien transformam simples acordes em verdadeiras viagens.

O clima soturno de ‘Climbing up the walls’ poderia ser trilha numa obra de Quentin Tarantino. A tristeza em No surprises e ’Exit music (for a film)’ tem como contraste o som crú de ‘Electioneering’. Os vocais mecânicos de ‘Fitter happier’ traduzem muito bem uma sociedade ‘formatada’, ‘ferpeita’ e sem personalidade. As viagens harmônicas de ‘Let down’, ‘Lucky’ e ‘The Tourist’ completam o trabalho e fazem dele não somente uma obra prima: traz de volta a possibilidade de explorar canções com os mais mirabolantes recursos de estúdio sem perder a força quando executadas ao vivo.

Para saber mais, compre, baixe na rede ou roube, seguindo o que está escrito na contra capa do Ziggy Stardust: ouça no volume máximo!